UNASUL-I, um passo rumo à integração regional sul-americana

Por Anna Luiza Dias, Carolina Carasek, Jonathan Siebauer e Vanessa Merkle

Desde o final dos anos 1960, ocorreu uma mudança na opinião militar dominante no Brasil. As Forças Armadas começaram a almejar por uma relativa independência tecnológica em relação aos Estados Unidos. Tornou-se claro que o acordo militar bilateral de 1952 (Acordo de Cooperação Mútua em Defesa) não mais atendia às exigências de modernização militar do país.

 A intenção brasileira de se transformar em uma potência exigia o desenvolvimento de uma capacidade estratégica nacional e diminuição das vulnerabilidades e, para isso, era necessário dotar o país de uma base industrial mais sofisticada, aprimorar a infraestrutura e modernizar as Forças Armadas. Como consequência, as relações entre Brasil e os Estados Unidos se enfraqueceram e a cooperação militar de 1952 chegou ao fim.

 Com a mudança da política externa no governo Geisel, em 1977, passou a haver maior preocupação com a região sul-americana. Isso foi consequência da maior ênfase dada à Amazônia pelos militares. Nesse sentido, foi assinado no mesmo ano o Tratado de Cooperação entre os países da região.

 Em 1982, com a Guerra das Malvinas, tornou-se óbvia a incapacidade dos países sul-americanos de se defenderem e a ineficácia do Tratado Interamericano de Defesa Recíproca, que colocou em evidência a desunião entre os países da América do Sul.

 Com a Guerra do Golfo, em 1991, os militares perceberam as novas condições de intervenção militar do pós-Guerra Fria. A ordem mundial havia sofrido um período de transição caracterizado pela despolarização, pela dissociação hegemônica e pela transnacionalização dos fenômenos. Questões de segurança como narcotráfico, terrorismo, pobreza extrema, crescimento populacional desordenado, desigualdade de renda, degradação ambiental e proliferação de armas de destruição em massa evidenciaram a necessidade de mudança das Forças Armadas para se adequarem às novas ameaças. Mostrou-se, assim, imprescindível a ação conjunta dos Estados.

 Nesse sentido, a criação da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) e do Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) no âmbito desta, representou um esforço de cooperação para o desenvolvimento de uma dinâmica de segurança com identidade própria, levando em consideração as necessidades específicas da região subcontinental sul-americana. Desde a criação do conselho, em dezembro de 2008, observa-se uma intensificação, por parte dos países-membros, na busca de soluções conjuntas em segurança para a região.

UnasulUma dessas medidas foi a negociação sobre o projeto IA-73 UNASUL-I, que almeja dar um passo no caminho da integração de quesitos militares, de inteligência, e de indústrias tecnológicas de cada país participante. O projeto consiste na cooperação interestatal para a construção de uma aeronave tripulada que terá como objetivo o treinamento de pilotos militares. A ideia por trás do projeto IA-73 também é de uma maior independência tecnológica por parte das nações participantes do projeto, uma vez que boa parte da tecnologia militar advém dos Estados centrais e tem um custo elevado.

 Essa iniciativa também possibilitou a criação da Escola Sul-Americana de Defesa (Esude), que busca a constituição de um centro de formação militar comum aos países-membros com o intuito de desenvolver uma visão conjunta de defesa regional. Possibilitou ainda o projeto para a fabricação de veículos aéreos não tripulados(também conhecidos como drones ou vant) para o monitoramento de regiões estratégicas e de difícil acesso, como a Amazônia.

O projeto

Unasur-1

A iniciativa para o desenvolvimento do IA-73 UNASUL-I partiu do governo da Argentina, que obteve apoio brasileiro devido à importante parceria estratégica firmada pelos dois Estados no campo de defesa. A apresentação oficial do projeto ocorreu em dezembro de 2012, durante a IV Reunião do CDS em Lima (Peru), realizada na presença de delegações de 11 países. Na ocasião, o ministro argentino Arturo Puricelli afirmou que o desenvolvimento da aeronave “é uma meta importante, porque ele vem para suprir a necessidade que muitas das nossas nações têm de uma ferramenta adequada para a educação e formação dos nossos pilotos”, explicitando o caráter predominantemente integrativo da empreitada.

Aprovada a proposta pelas nações integrantes, esta passou a fazer parte do Plano de Ação do Conselho para o ano seguinte. Já no início de 2013, em sinal do rápido engajamento dos chefes de Estado no projeto, realizou-se na Fabrica Argentina de Aviones (FAdeA) a 1ª Reunião Presencial de 2013 do Programa UNASUL-I, como resultado de uma série de reuniões que se sucederam ao acordado pelo CDS em 2012.

Com a evolução das negociações, em 10 de abril de 2013, durante a Feira Internacional de Defesa e Segurança, realizada no Rio de Janeiro, os representantes da Argentina, do Brasil, do Chile, da Colômbia, do Equador, do Uruguai e da Venezuela se reuniram para a assinatura do documento que institui o comitê consultivo do projeto.

Para o desenvolvimento do UNASUL-I, o Brasil alocou 38 milhões de dólares e a Argentina 16 milhões de dólares, enquanto o Equador e a Venezuela canalizaram, cada um, 3 milhões de dólares. Para isso, houve a fundação da sociedade anônima “UnasurAero”, em que as empresas do projeto são contratadas e remuneradas pelos materiais e equipamentos fornecidos. Os países membros fazem o pagamento ao “UnasurAero”, que ulteriormente contratará as empresas, conforme haja necessidade.

 O Brasil deverá colaborar com aproximadamente 62% dos subsistemas. A fase de desenvolvimento do projeto terá um custo aproximado de US$ 60 milhões. Com isso, pelo menos US$ 36 milhões serão destinados às quatro empresas brasileiras que participam do projeto: Novaer, Akaer, Flight Technologies e Avionics. Elas foram classificadas como Empresas Estratégicas de Defesa pelo ministério da Defesa brasileiro por desenvolverem tecnologias indispensáveis ao país. As empresas argentinas deverão participar com 28%, e as equatorianas e venezuelanas com 5% cada.

 O UNASUL-I será utilizado pelos militares sul-americanos para treinamento primário básico, ou seja, será o primeiro contato do piloto com a aviação. O projeto, ainda em fase de desenvolvimento, já conta com uma demanda inicial de 92 aeronaves. A Argentina já manifestou interesse em adquirir 50 aviões, o Equador 18 e a Venezuela 24. O Brasil, apesar de contribuir financeiramente para a construção das aeronaves, não expressou desejo em adquiri-las por ter seus próprios aviões do gênero e não estar em fase de substituição da sua frota de treinamento. Entretanto, a Força Aérea Brasileira (FAB) assegura que o projeto trará benefícios de médio e longo prazo à área de defesa do Brasil.

 “Para o Brasil e suas empresas, o projeto se apresenta como uma oportunidade de consolidar sua liderança regional, além de propiciar o ingresso de empresas nacionais em mercados normalmente dominados por chineses, russos e israelenses”, informa o Ministério da Defesa. Ainda segundo o MD, o projeto está completamente alinhado com a Estratégia Nacional de Defesa e com as diretrizes do Ministério no esforço de fortalecimento da cooperação e do desenvolvimento regionais.

 Para a Argentina, Equador e Venezuela, além de suprir a necessidade de aeronaves de treinamento básico, o programa também ajudará no desenvolvimento das indústrias de defesa dos países, sobretudo através do intercâmbio operacional e gerencial com as empresas brasileiras.

 Os países que integram o Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) deverão dispor do primeiro protótipo do avião até o fim de 2015. A aeronave militar de treinamento básico e primário ficará pronta em 2016 e estará disponível para venda para os países-membros da Unasul em 2017. A princípio, o avião deverá apenas atender às demandas das Forças Aéreas desses países, mas depois poderá ser comercializado com outras nações.

Análise da Negociação

 

Objeto:

 

Desenvolvimento do UNASUL-I
Atores:

 

 

 

Argentina, Brasil, Equador e Venezuela – países membros da Unasul
Natureza: Integrativa
Dimensão:

 

Regional
Duração:

 

Em andamento. Iniciou em 10 de abril de 2013 com a criação do comitê consultivo e tem a finalização prevista para 2016.
Nível:

 

Multilateral
Análise macro: Declínio da hegemonia norte-americana no âmbito de defesa da América do Sul.
Análise meso:

 

Maior integração entre os países da Unasul
Análise micro:

 

Forças Armadas da América do Sul desenvolvendo tecnologia própria. Estratégia do Brasil em participar dessa construção e não ficar tão dependente de tecnologia externa.

 

Críticas ao projeto

 Exatos 11 meses depois que a VIIª Reunião Executiva do Conselho de Defesa Sul-americano anunciou em Lima a finalização, por técnicos argentinos, do projeto de um avião monomotor para as forças aéreas da região (UNASUL-I), a ministra da Defesa do Equador, María Fernanda Espinosa, e seu colega da Pasta das Indústrias e Produtividade, Ramiro González, assinaram um acordo destinado a, no prazo de cinco anos, promover a construção da primeira aeronave militar equatoriana: um treinador de pilotos capaz de servir também como avião de fumigamento para as lavouras do país. A expectativa da oficialidade equatoriana é de que o aparelho esteja pronto para o seu voo inaugural em outubro de 2015, e um ano depois já esteja sendo produzido em série.

 Já na Bolívia, entre maio e outubro de 2013, o Centro de Indústria e Tecnologia Espacial (CITA) de Santa Cruz de La Sierra entregou à Força Aérea Boliviana dois protótipos de aeronaves com tamanhos e préstimos diferentes. O primeiro foi o Gavilán, aparelho de quatro lugares, próprio para o adestramento de pilotos e missões de evacuação aeromédica, o segundo modelo, batizado de Tiluchi, é um biposto dedicado a voos de instrução.

 As iniciativas de Equador e Bolívia deixam apenas metade dos países-membros da Unasul, como potenciais usuários do UNASUL-I: Argentina, Venezuela, Uruguai, Paraguai, Guiana e Suriname. Brasil, Chile e Colômbia já fabricam os seus próprios aviões de treinamento primário e o Peru vai começar a produzir o modelo KT-1, sul-coreano.

 Outros possíveis clientes do UNASUL-I seriam Cuba e Nicarágua, entretanto, a renovação dessa frota de treinadores não exigiria mais do que meia dúzia de aparelhos. Além disso, tanto as autoridades cubanas quanto as nicaragüenses vêm formando seus jovens aviadores na Escola de Aviação Militar da Venezuela.

 No grupo dos prováveis utilizadores, o Paraguai representa uma incerteza, tendo em vista que sua força aérea tem propostas firmes da Embraer e da Korean Aerospace Industries, fabricante do KT-1. Guiana e Suriname constituem mercados de valor econômico quase desprezível uma vez que suas necessidades em termos de equipamento de voo são controladas à distância pela Embraer e por grandes indústrias aeronáuticas da Europa.

 Para piorar as expectativas dos projetistas argentinos, a companhia brasileira NOVAER apresentou no município paulista de São José dos Campos, principal pólo aeronáutico do país, o seu modelo TX-c, que deve ser fabricado em série no município catarinense de Lages. O modelo é um monomotor de asa baixa e trem de pouso tipo triciclo retrátil, que será produzido nas versões de treinamento (utilizável também como aparelho de acrobacia) e utilitário para quatro passageiros.

 Com isso, a utilidade do monomotor de treinamento anunciado pela União de Nações Sul-americanas vem sendo ameaçada por projetos isolados das indústrias aeronáuticas regionais.

 Portanto, do ponto de vista econômico, a efetividade do projeto pode ser questionada, o que todavia não chega a retirar-lhe o mérito do ponto de vista estratégico.

Considerações Finais

 Os obstáculos frente ao projeto UNASUL-I perpassam pela ainda frágil interdependência da região, que em relação ao âmbito de defesa ainda é recente e incerta. No entanto, o projeto e seus sucessores (desenvolvimento do VANT e Esude) demonstram que os países da América do Sul caminham rumo a um maior comprometimento no treinamento de forças armadas especializadas e que trabalham em conjunto, capazes de garantir a segurança regional ante problemas tão peculiares.

Desde sua criação em 2008, a Unasul já previa uma integração maior entre os países latino-americanos, mas o projeto IA-73 representa um maior impulso à formação de confiança mútua e cooperação, que se estende, além da área militar, aos âmbitos econômico e tecnológico, trazendo a possibilidade de uma ação conjunta e concreta entre seus membros. A Unasul mostra, dessa maneira, que pode vir a se tornar um importante propulsor para a unidade e colaboração na América Latina.

Referências

Países da Unasul criam comitê consultivo do primeiro avião de treinamento básico regional. Portal Planalto. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://www2.planalto.gov.br/excluir-historico-nao-sera-migrado/paises-da-unasul-criam-comite-consultivo-do-primeiro-aviao-de-treinamento-basico-regional>

Unasul aprova programa para desenvolvimento de avião. Portal Planalto. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://www2.planalto.gov.br/vice-presidencia/vice-presidente/noticias/noticias-do-vice/2012/11/2012-11-30-michel-temer-unasul>

Unasul I: um avião para (quase) ninguém. Brasil Soberano e Livre. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://brasilsoberanoelivre.blogspot.com.br/2014/04/unasul-i-um-aviao-para-quase-ninguem.html>

Unasul aprova criação da escola sul-americana de defesa. Ministério da Defesa. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://www.defesa.gov.br/index.php/ultimas-noticias/8952-21-02-2014-defesa-ministros-integrantes-da-unasul-aprovam-criacao-da-escola-sul-americana-de-defesa>

Unasul aprova criação da escola sul-americana de defesa. Isape. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://isape.wordpress.com/2014/02/21/unasul-aprova-criacao-da-escola-sul-americana-de-defesa/#more-14295>

Avança o projeto do avião de treinamento básico Unasur 1. Guerras e Armas. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://guerraearmas.wordpress.com/2012/11/14/avanca-o-projeto-do-aviao-de-treinamento-basico-unasur-1/>

Conselho da Unasul cria comitê para desenvolvimento do primeiro avião de treinamento regional. Agência Brasil. Acesso em 07 abril 2014. Disponível em: <http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2013-04-09/conselho-da-unasul-cria-comite-para-desenvolvimento-do-primeiro-aviao-de-treinamento-regional>

Avião da Unasul ficará pronto em três anos. Agência Brasil. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://www.aereo.jor.br/2013/05/18/aviao-da-unasul-ficara-pronto-em-tres-anos/>

Unasul 1: um avião para (quase) ninguém. DefesaNet. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://www.defesanet.com.br/al/noticia/15180/Unasul-I–um-aviao-para-(quase)-ninguem-/>

Unasul anuncia venda de avião militar para 2017. Terra. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://noticias.terra.com.br/mundo/america-latina/unasul-anuncia-venda-de-aviao-militar-para-2017,bc7375434c8ae310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html>

FADEA apresenta projeto do avião de treinamento sul-americano, o unasul-1, na LAAD 2013. Fadeasa. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://isape.wordpress.com/2013/04/27/fadea-apresenta-projeto-do-aviao-de-treinamento-sul-americano-o-unasul-1-na-laad-2013/>

Unasul Brasil, Argentina, Equador e Venezuela vão fabricar avião militar. Notícias 0 Minutos. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://www.noticiasaominuto.com/mundo/238931/brasil-argentina-equador-e-venezuela-vao-fabricar-aviao-militar>

Unasul decide fazer drone para países sul-americanos sem armas. Aereo Jornalismo. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://www.aereo.jor.br/2013/11/11/unasul-decide-fazer-drone-para-paises-sul-americanos-sem-armas/>

América do Sul desenvolve aeronave militar de treinamento. InfoRel. Acesso em: 07 abril 2014. Disponível em: <http://www.inforel.org/noticias/noticia.php?not_id=5864&tipo=2>

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s